Edna Florentino Diogo Silva
Mas a palavra foi aos pouco me desmistificando e me obrigando a não mentir.
(Clarice Lispector)
Introdução
Quando se fala em Clarice Lispector pensa-se na escritora de belos textos, mas de linguagem difícil. Uma escritora que, em relação ao romance brasileiro de 1930, marcado pelo neonaturalismo – que abordava em sua maioria temas sociais, como faz José Lins do Rego e Graciliano Ramos – apresenta uma escrita contrastante aos autores de sua geração. Estes, apesar de renovadores, mantinham a supremacia do tema sobre a linguagem. Para Clarice, ao contrário, a palavra era evocação para um mundo misterioso. Clarice nos mostra, segundo Antonio Candido, que “o mundo da palavra é uma possibilidade infinita de aventura, e que antes de ser coisa narrada a narrativa é forma que narra” (1977, p.125) A Hora da Estrela é uma dessas belas escrituras, entretanto, para este estudo o que importa não é o hermetismo do texto e sim os aspectos sociais que aparecem de forma imbricada na obra.
O objetivo desse trabalho é provar, por meio de um estudo da novela de Clarice Lispector A Hora da Estrela o compromentimento da autora com causas sociais, especificamente com a exclusão e alienação.
Qual o papel da autora Clarice Lispector em sua obra A Hora da Estrela? O que parece é que há um autor implicado, mas que se apresenta literalmente através de uma dedicatória assim formulada:
DEDICATÓRIA DO AUTOR
(Na verdade Clarice Lispector)
Clarice acaba se nomeando nesse texto ao apresentar o narrador-autor Rodrigo S.M.:
Eu, Rodrigo S.M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e de chuva caindo. (1997, p. 27)
Após apresentar-se, o escritor-narrador começa um ritual para compôr sua personagem principal. Macabéa vai sendo apresentada lentamente, como se estivesse sendo modelada. Nesse trabalho de modelar, Rodrigo S.M. vai moldando sua própria identidade:
Estou esquentando o corpo para iniciar, esfregando as mãos uma na outra para ter coragem. Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. (1997, p.28)
Essa relação Clarice/Rodrigo/Macabéa pode estar na carência, na marginalização, que os transforma em um só ser. Quem sabe esse ser é a própria Clarice Lispector, ou eu, ou você, ou somos todos nós. O que importa é que a identificação não se restringe, mas estende-se a todo ser humano com suas mais íntimas, indizíveis e ocultas frustrações.
Será essa história um dia meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial. (1997, p.26)
O texto trata de uma mulher tão ínfima, tão insignificante que é difícil falar sobre ela, é difícil descrevê-la devido sua mediocridade. Um exagero em decadência. Entretanto Macabéa para esta pesquisa é uma estrela de quinta grandeza.
A Hora da Estrela é considerado o último texto de Clarice Lispector, revisado e publicado em vida. A análise dessa obra ligada à biografia da autora nos mostra que o texto é uma auto-reflexão dentro do universo ficcional de Clarice Lispector.
Avessa a entrevistas e ao convívio intelectual, o que se sabe da escritora baseia-se nos poucos depoimentos que deu e de trechos autobiográficos presentes em sua ficção.
Há várias citações sobre o isolamento de Clarice em seus últimos anos de vida. Lutando contra o câncer, ela escreve aos fragmentos e concomitantemente suas últimas obras. Segundo sua secretária, Olga Borelli, além de A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, também escrevera os contos A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais e Um Dia a menos.
Em janeiro de 1977 contrariando seus hábitos dá uma longa entrevista na tevê Cultura, posteriormente reproduzida na Revista Shalom.
Nessa entrevista, ela afirma ao jornalista Júlio Lerner, que terminara de escrever uma novela de treze capítulos. Num certo tom de mistério, faz a sinopse da obra: “É a história de uma moça nordestina, de Alagoas, tão pobre que só comia cachorro quente. A história não é só isso, não. A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima” (Lerner, 1992, p.21).
Quando o entrevistador lhe pergunta sobre o processo que a inspirou nessa obra ela abre a memória autobiográfica e responde:
Morei no Recife... me criei no Nordeste. E depois no Rio de Janeiro tem uma feira dos Nordestinos no Campo De São Cristóvão e umavez eu fui lá. Daí começou a nascer a idéia... depois fui a uma cartomante e imaginei... que seria engraçado se um táxi me pegasse, me atropelasse e eu morresse depois de ter ouvido todas essas coisas boas.
(Lerner, 1992, p.22/23)
A obra da qual ela estava falando era A Hora da Estrela.
Ao escolher o foco narrativo da novela A Hora da Estrela, Clarice nomeia Rodrigo S.M. seu escritor-narrador. Ironicamente quem irá representá-la será um homem. Rodrigo constrói paulatinamente sua personagem principal, Macabéa. Clarice apresenta Rodrigo lentamente. Na verdade a construção das personagens Rodrigo e Macabéa é concomitante. Nesse processo surge uma nova personagem, intimamente ligada às outras duas entidades – Clarice Lispector.
Nos Estudos Literários o termo que poderia ser usado para participação de Clarice na narrativa é, segundo Wayne Booth, a de “imply author”. Geralmente traduzido como autor implícito, mas, segundo Genette (s.d.), o termo “autor implicado” corresponde melhor à tradução do Inglês designada por Booth (Booth, 1980, p.165).
Booth distingue entre o autor real, o autor enquanto sujeito empírico e histórico e o autor implicado, que o autor real cria quando escreve uma obra literária que é imanente à totalidade de uma obra e do qual o leitor reconstruirá uma imagem. O autor implicado seria, dentro de uma narrativa, um segundo “eu” que aparece entre o verdadeiro autor e o narrador: “Até o romance que não tem um narrador dramatizado cria a imagem implícita de um autor nos bastidores seja ele diretor de cena, operador de marionetes ou Deus, indiferentes, que lima, silenciosamente, as unhas” (Booth, 1980, 167).
O autor implicado tira de cena o autor propriamente dito, e resolve o problema do biografismo que responsabiliza o autor diretamente pela ideologia e pela moral da narrativa; e, por outro lado, valoriza a dimensão histórico-ideológica do texto, concluindo que a opinião do autor pode estar no conteúdo da obra ou nas suas estruturas formais.
O “autor implicado” de Clarice Lispector aparece na narrativa de maneira atípica. Ela apresenta um autor que, na verdade, é falso: Rodrigo também é personagem, tanto quanto Macabéa. E, assim, Clarice também se torna personagem. De maneira ousada, a autora faz um jogo ficcional, sobre o qual Benedito Nunes conclui:
Uma outra presença, que disputa com a do narrador, nessa modalidade de fala: a presença da própria escritora, já declarada na dedicatória da obra... . Suspendendo, pois, a sua máscara ficcionista acreditada ao identificar-se com S. M. – na verdade Clarice Lispector – e por intermédio dele com a própria nordestina, Macabéa – a quem se acha colado o autor interposto –, Clarice Lispector faz-se igualmente personagem. E é ainda ela, Clarice Lispector que dedica o livro, “esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje, ossos, ai de nós”. (1995, p. 164)
Muitas vezes o narrador pode não ser digno de confiança: é o que Booth chama de “unrielliable narrator”. S.M. só se torna verdadeiro se estabelecermos uma relação entre ele e o “imply author” Clarice Lispector.
Clarice, na verdade, é Rodrigo que é Macabéa. Isso leva-nos a concluir que Clarice também é Macabéa, que se dedica para o leitor:
Dedico-me a... todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu nesse instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não agüento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há de fazer senãomeditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. (p. 21)
Todo esse desmascaramento, essa divisão de identidades vai num tom lento, choroso, como um “blue”, o “lamento de um blue”.
Clarice Lispector fora muito cobrada, enquanto intelectual, por recusar-se a perseguir o romance documental. A personagem Macabéa é a prova da reflexão da autora a respeito de temas sociais brasileiros. Neste caso ela denuncia a (des)integração do migrante nordestino e sua difícil adaptação no eixo urbano.
Macabéa não ocupa lugar nenhum, pertence a uma raça medíocre, excluída, que não tem história e nem está inserida na História. Ou melhor, através de seu silêncio e sua ignorância ela acaba possuindo uma história pelo avesso. Macabéa é um todo negativo:
É feia – mas não chama a atenção, nem pela feiura; não é branca, não é preta, não é mulata é ‘pardacenta, ou ‘encardida”, é tuberculosa – mas não sabe quais os riscos da doença; é burra – , mas é datilografa, o que já é pelo menos ter um status de alfabetizada. (Sperber, 1983, p. 154)
O pensador Theodor Adorno (1994), da Escola de Frankfurt, retoma alguns temas do marxismo, entre eles a Teoria da Ideologia. Na sua concepção um dado ideológico é uma experiência social que não se reconhece como particular e se dissolve no geral. É uma falsa experiência social, que na novela é vivida por Macabéa, Rodrigo e Clarice Lispector: Macabéa na sua ignorância e impossibilidade de adaptação; Rodrigo na dificuldade de escrever sobre a nordestina, o medo da recepção de seus leitores; Clarice usando como heterônimo um homem, mascarando sua feminilidade marginalizada. Todos esses fatores são dados ideológicos, ideologia esta que leva à alienação e à exclusão.
Na sociedade capitalista a desigualdade básica não aparece como diferença, mas como exclusão; um processo natural que se estabelece de cima para baixo, através da estigmatização, e no limite, liquidando aqueles que não se enquadram na comunidade popular. Situação muito semelhante à dos judeus, já que o antisemitismo constitui um componente essencial da política nazista.
As personagens da obra são exemplos práticos da Indústria Cultural. Esse termo foi usado pelos pensadores Adorno e Horkheimer para substituir o termo Cultura de Massa que, segundo eles, levava a pensar numa cultura que surge espontaneamente das massas.
Macabéa não teve propriamente uma história pessoal. Órfã de pai e mãe, criada com descaso por uma tia, para ela a felicidade não tinha um sentido consistente. Sua simplicidade passiva a torna pressa fácil da Indústria Cultural. Ela é fascinada pelas estrelas de cinema e pelos anúncios publicitários. As notícias da Rádio Relógio integram seu contexto alienado. A história de Macabéa se resume numa sobrevivência subumana pois, para tudo que deseja e sente, não dispõe de palavras para expressar. Macabéa na sua cegueira social é uma das engrenagens que fazem mover a Indústria Cultural
E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa, virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser. (1997, p.52)
Rodrigo S.M., o narrador-escritor, o dono da palavra também é uma vítima da Indústria Cultural, seus melindres em relação à apresentação da sua personagem é devido a sua cumplicidade com a recepção de seus leitores: quem irá consumir seu livro?
A Indústria Cultural uniu as classes sociais prejudicando-as igualmente. Ela especula o estado de consciência de milhares de pessoas e a rainha, a dominadora da situação é a mercadoria.
Clarice decide publicar uma história sobre a pobreza social e existencial de uma mulher, com um autor narrador atormentado, que revela a desilusão contida no trabalho do escritor. Se o autor implicado carrega a ideologia do autor real, todas as agonias da autora estão resumidas em Rodrigo, até mesmo na crise existencialista de Macabéa: “Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser” (1997, p.35).
A escritora revela um traço de desesperança que pode ter sua origem na maneira como os críticos delimitavam sua obra. Estereotipada como uma mulher que escrevia sobre mulheres para mulheres. Na novela A Hora da Estrela ela contraria a todos. Na obra ela investiga o perfil da feminilidade, mas sobre a pseudo-responsabilidade de um homem. Macabéa sai da costela intelectual de Rodrigo.
É importante ressaltar que os aspectos sociológicos da obra A Hora da Estrela não se esgotam aqui. Poder-se-ia reescrever a narrativa passo a passo mostrando o contexto ideológico. Segundo a ensaísta Suzi Frankl Sperber “A Hora da Estrela é uma narrativa para as patrulhas ideológicas não botarem defeito. Há pobreza, fome, doença e morte violenta” (1983, 155).
O que importa é que fique claro que Clarice nunca esteve alheia a problemas sociais, ela fora vítima da ideologia, assim como todos nós o somos.
O romance apresenta tipos humanos que de início se apresentam como pessoa única, singular. A medida em que vai ocorrendo a narrativa, eles tornam-se coletivos, identificando-se como objetos humanos produzidos pela Indústria Cultural. Sob essa perspectiva todo ser humano em proporções diferenciadas, guarda em si, um pouco, “um povo Macabéa.”
Referências Bibliográficas
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